Chega um tempo que é impossível deixarmos de nos associar e negar a realidade.
Hoje quando sai da cama, olhei os raios de sol e notei que estava vivo... é mais um dia.
No espelho do banheiro ao me ver fiquei com vergonha de mim.
Meus cabelos brancos...meu rosto..o tempo chegado até aqui.
Olhei fixamente para mim, e passou um filme..um filme de vida..da minha vida..e não pude segurar minhas lágrimas...e hoje me sinto um palhaço...um número de estatística do IBGE.
Não há respeito com a vida..com sentimentos das pessoas.
Me vejo um palhaço sim..procuro sempre me colocar no lugar do outro, vendo a banda da indiferença tocar.
Me vejo fazendo uma maquiagem no meu rosto.. pintando o nariz de vermelho..cores fortes..coloridas no meu rosto..usando roupas de um palhaço decadente, ultrapassado, sem perspectivas pra ir pro picadeiro das ilusões do circo da vida.
Quem sabe um asilo de artistas aonde os velhos vão se amontoando, recebendo cuidados de cuidadores de nosso ocaso...me espera.
Ah..!me agarro a fiapos de vida..que a cada dia vai chegando e o palhaço da vida não sabe se tem esse tempo.
O picadeiro ficou na memória...e ficam lembranças de algazarras que pulam que nem cambalhotas que a vida me proporcionou.
O espelho fica me olhando..eu também o olho, fico petrificado, me tocando no rosto suavizando cada marca que o relógio da minha vida de PALHAÇO me deu.
Nesse instante em que me encontro frente ao encontro comigo no espelho, não posso esquecer tudo que vi..tudo que vivi..os aplausos, as vaias, a indiferença, a ingratidão, o tapete tirado do meus pés, as traições e também aquela criança que não sorriu com minhas palhaçadas enquanto saboreava sua pipoca.
O quadro da vida...passa nesse momento em que o espelho vê o palhaço.
E o palhaço fica paralisado ali.. agarrado a um fio de fiapo de uma alegria, esperança, do picadeiro que não tem mais.
Jogo água que corre na torneira..
e ela como uma faísca me atiça...e vou me vestir de palhaço para um novo dia.
Pena que o picadeiro não visualizo.
Na luta sempre!!