terça-feira, 21 de setembro de 2021

SOBRE A PAIXÃO

O pobre Brasil anda desolado, anda desarrumado,jogado às traças. Mas era bonito o Brasil, viu? Tinha seus problemas, mas era vaidoso, tinha amor próprio. Só que caiu nas graças de uma paixão cruel. Nem é o caso de amor não correspondido: o caso é grave, de violência, de submissão, de desmandos. O pobre do Brasil ainda muito jovem, imaturo, apaixonou-se perdidamente : ouviu promessas,encantou-se. E eu nem sei exatamente pelo quê. Mas como dizem...o coração tem dessas tolices. E iludido, o Brasil não enxergou o que estava  a um palmo do seu nariz. Daqueles sentimentos arrebatadores que a gente  fica intrigado: " mas eu não sei o que viu para se apaixonar assim". Viu e se jogou em uma aventura.

DE CORTAR O CORAÇÃO
Hoje, passados mais de 600 dias dessa relação- que nem é de altos e baixos, é só para baixo mesmo, e o fundo do poço parece não ter fim - o coitado do Brasil  não consegue nem sequer  alimentar seu povo. Tem uma inflação de 9,30%.
Para o almoço precisa precisa do óleo de soja que ficou 78,75% mais caro. Pensou fazer um arroz, mas esse subiu 36,39%. A carne, já abandonou faz tempo, porque não acompanhou o aumento de 31,31%. E o feijão de todo o dia? Como é que vai para a mesa, custando 10,67% a mais? O café da manhã ficou sem café, que subiu 17,15%, e sem o leite, que disparou da mesa do Brasil, quase 10% mais caro.
Está parando, prostrado, o pobre Brasil: teve aumento de 39,52% na gasolina. É um Brasil apagadinh, com o custo da energia elétrica que disparou em 20,86% e ainda subirá mais.
O Brasil,de hoje, sem gás, que aumentou cinco vezes mais que a inflação em um ano, anda movido a lenha. Dá até pena de olhar.

TARDE DEMAIS

Nos últimos dessa triste história, um Brasil que se dá conta tarde demais da desgraceira em que se meteu. Palavras vazias encheram sua cabeça. Tá em crise o pobre Brasil: crise sanitária, crise hídrica, crise energética, crise ambiental, crise institucional. Abandonado, sofre com o amor  não correspondido. Mas o que fez para merecer isso? Apaixonou-se. Agora precisa amargar  a dor do término, aprender a lição e manter-se de pé.Firme. 
Entender que paixões são baseadas em projeções e que as projeções se dissipam. São como os mitos que se desfazem: a imagem começa a ruir, a ruir, até cair. Se deu conta tarde demais, o ingênuo Brasil.
Que tenha  mais  sorte da próxima vez. Ou melhor: sorte não. Não se trata de um jogo de sorte ou azar. 
Que o Brasil saiba escolher, com base mais na razão e menos na emoção.
JULIANA PETRRMANN, professora universitária
Diário de Santa Maria,07/09/21

Na luta sempre!!




sábado, 4 de setembro de 2021

O BAILE DO SOLTO DAS PATAS EM SÃO GABRIEL

Faz tempo que não vejo aquela percanta, talvez ande por ai, rondando campos coxiliados em suas andanças em bailantas gaúchas. Mas a disgranida era bonita não vou dizer ao contrário, não sei o porque dessa partida, mas sei que são coisas de amor, amor gaúcho. Um dia num fandango em São Gabriel, aonde fui convidado para ir, eu vi ela, mas hoje já não sei se era ela, ou quem sabe eu quisesse que meus olhos confirmassem a discrição da vivente. Foi um fandango daqueles macanudos, o baile ia cantando esporas lascando o chão do salão, os candieiros em cada canto do salão, marcavam aquele fusco-fusco, aquele fumaceiro dos charutos, dos cigarros de palha, os cheiros das canhas nos copos das mesas, o cheiro das chinas, com suas bocas carnudas com batom vermelhos, realçando os beiços,os recavéns bonitos ao olho do gaúcho, o pó caschimier bouquer 51, exalava nas faces das chinocas, com seus vestidos vistosos, cada qual um mais bonito do que o outro. O som vibrante de uma gaita choramingava nos acordes da noite escura, com prenúncios de temporal, acompanhando a gaita um pandeiro faceiro fazendo a corte do conjunto que abrilhantava a noitada. Eu com meu chapéu preto Marcatto vi uma mesa vazia no centro do salão, e me aprocheguei eu e minha cadela Totó, vi que atrás dela vinha um batalhão de outros cuscos que queriam levar ela pros pelegos, pois a cachorrita minha de estimação estava no cio e eu observava muitas vezes que ela gostava da coisa, era uma cadela baixinha, baia, com aquele olhar safadinho, mas ela era muito arteira na arte do amor, minha TOTÓ,era gulosa, fogosa na arte do amor. Eu olhava no centro do salão, o sassarico da gauchada grudado nas ancas das chinas, ao som de um vaneirão, de um chamamé e embaixo da mesa os meus pés faziam seu bailito quietinho mas louco para se misturar no entrevero do baile. Eu pedi um vinho marca Chapadão, proveniente lá das bandas de Jaguari, cada gole que o gaúcho levava goela abaixo, parecia uma tormenta que passava a galope em minha garganta. Mas eu pensava na china aonde ela poderia estar, em que pelegos poderia estar, mas uma certa hora, veio uma chinoca, baixota, bonita a desgraçada, passando perto de aonde eu estava, senti aquele cheiro de fêmea e me deu um alvoroço nos meus mocotós, revirei os zóios pra aquela china para observar para aonde ela ia. De repente o gaiteiro dedilhava um chamamé acompanhadito de um pandeiro pra lá de animado, ai eu ,gaúcho,da terra dos marechais, tapeei meu chapéu na testa e fui atrás daquela formosura de china,seus olhos lembro bem, pareciam bolitas grandes, ah!! mas o cheiro da china me entupia de desejos que só um pelego era o que eu queria naquela hora, pois aceso como eu estava já me via com aquela china num entrevero de amor, testemunhado pela lua e as corujas num moirão. Mas, esse gaúcho, eu não contei a saga final,lá pelo quase fim do bailão,começou aquelas luzes que acendiam e apagavam, junto a tiros de canhão,isso era o que eu pensava, porque os meus pensamentos estavam naquela china que cutucava a minha cabeça, mas devereda, minha santa mãe dos medrosos, veio o mundo abaixo, apagaram as luzes dos candieiros, lampiões e o único clarão que se via eram dos relâmpagos e os tiros dos trovões, mas eu gaúcho cagão, peguei minha cadela Totó, e me fui pra baixo de uma mesa para me proteger, isso que era coragem, não é mesmo ? Bah!! para terminar o causo, eu me vi solito naquele salão de baile todo cagado de medo, e sem a china que meus zóis procuravam. E ai todo abichornado, peguei minha cadelinha, montei no meu zaino, e me fui pras casas mas na esperança que na próxima vez seria tudo diferente. NA LUTA SEMPRE!!

FOI AMOR, SIM

Foi amor, sim, não tinha como não ser, foi de um momento para o outro, ocorreu aquele momento que paralisou minhas retinas, cristalizou meus...