Sou gaúcho, da terra do Sul, de São Gabriel.
Das peleias de nossos farrapos.
Sou o berro do touro na invernada .
Sou pedaços que carrego, a tradição da bandeira gaúcha.
Dessa terra simbolizada pelas mateadas, da nossa seiva verde.
Sou gaúcho, mistura de bugre, português, espanhol, índio.
Dos campos dessa terra que me pariu .
Lá brotei com a terra dos campos coxilhiados dessa bendita Pátria Gaúcha.
Cresci, com o relincho dos baguais.
Com os exemplos do meu tio Peri que nesses escritos que minha simplicidade,nesse momento escreve,para agradecer com todo o meu coração, tudo que me ensinaste e que levei para minha vida.
Tio Peri, meu padrinho, com sua companheira, amada tia e madrinha, Maria Olivina. Ela tinha aquela voz mansa, carinhosa, sempre procurava ajeitar aqui e ali as coisas, tanto as coisas da casa, como o cuidado com os filhos.
Sempre com os seus conselhos, procurando harmonizar a vida.
Meu tio Peri, homem forte, forjado na luta do campo que era sua alma.
Ele amava a terra, mexer na terra, cuidava da terra.
Homem que exemplificou momentos, em que aprendi muito.
O que é ser homem,a luta em busca do caminho reto.
Um homem, bravo, destemido que contrastava com o seu sorriso largo, e brilho nos olhos.
Meu tio Peri, padrinho, amigo!
Sua companheira , minha tia , madrinha , Olivina ! Gente de coração aberto, gente da melhor qualidade, que me ajudaram muito, me fizeram alguém melhor, tenho certeza disso .
Enquanto meu tio era um homem rude, forte, que o tempo lhe fez forte, no dia a dia, contrastava com a paciência, e o modo de ser de minha tia.
Naquele tempo a mulher , era "submissa" mas minha tia pequenina era uma leoa!
Apesar das adversidades, ali tinha amor!
Quanta saudade daqueles dias embaixo da parreira, das comilanças, dos almoços, da bóia do dia.
Meu tio Peri sempre sentava no seu banco de madeira que ele mesmo fez.
Ele gostava da mesa farta, de todos reunidos.
Eu sempre ia passar minhas férias escolares, lá fora, no campo, no corredor dos Cortianas.!!
Ah !! Que tempos maravilhosos que quero aqui, nesse espaço reverenciar, agradecer, ao meu tio, tia, aos primos , e primas.
In memorian, tio Peri, tia Olivina, meu primo Júlio, e o meu primo Perizinho.
E a prima Mara Lídia (Loloca)Paulo Miguel ( Pauloca), e Luiz Henrique ( Lilique).
Lembro , que quando eu chegava lá nos meus tios para passar as férias escolares, tanto de verão, ou inverno, via no olhar de todos a alegria nos olhos.
Na minha bagagem, o essencial, muitos
livros e livros, canetas, papel para escrever era o meu alimento nas horas em que eu ficava embaixo de uma sombra para escrever, ler.
Escrever,ler,é pra mim tudo, quando escrevo saio de mim, viajo, faço tudo, ah....eu apronto !
Meu primo Júlio, com seu tradicional bigode, sua bicicleta Monark, era calmo, voz mansa, tinha muita paciência, era um rio manso.
O Perizinho era o mais inquieto, aprontava muito, gostava de um traguito de canha, adorava dar aqueles talagaços"socialmente", era namorador, para variar.. rsrsr.
Era fuzarqueiro, medonho como todo guri, na idade tenra, desabrochando pra vida o vivente.
Tinha um bom coração, gostava de "inticar" comigo.
Eu era um guri...magrinho.. tímido, ainda hoje, a idade não mudou meu jeito.
Eu guri de cidade, magricelo, mas sentia de todos aquele carinho, aquele amor, diziam..." Julinho... você está em casa".
Eu me sentia muito acolhido, aquerenciado.
O Paulo Miguel,( o Pauloca), o Luiz Henrique ( Lilique) aprendi, com eles também, sabe...gente boa a gente nota no coração.
A Rosinha, prima, e a Mara Lídia, (Loloca) prima.
Sempre fazendo de tudo para eu estar bem.
A vida no campo, o gostar do campo, o amor ao campo, a tradição gaúcha, o gostar do cheiro do campo, o trato com os cavalos, o gado...que lindo tudo....plantar, colher, são os motivos do campo que carrego no coração que meu corpo nesse momento tem arrepios de muita saudade que minha memória fala, estravaza.
Me sinto hoje já tordilho pelo tempo um homem agradecido por essa fase de minha vida ter vivido.
Ah.. não posso esquecer das comidas da minha tia Olivina, a baixinha, pequenina, quando eu ia na cozinha aquele cheiro gostoso, minha tia fazia de tudo, doces era uma quantidade enorme, porque graças a Deus , da terra eles tiravam tudo.
Aquele feijão temperado com amor e carinho....me lambia os beiços ..tinha uma mão maravilhosa na arte de cozinhar naquele fogão a lenha..
Bah... após o almoço, eu era viciado em mogango com leite, eu me fartava...eu era muito guloso.
Eu chegava lá magrito mau de engorde, e saia de lá pançudo..kkkkkk.
Meu pai Getúlio dizia.. "Peri, o Julinho vai ficar aqui para pegar estado.." o tio largava aquele sorriso largo de alegria e satisfação.
Das primas Rosa e Mara Lídia, eram muito amigas minha.
A Rosinha, era muito de dançar no CTG, lembro daqueles lindos vestidos, azul, rosa, vermelhos, aqueles cabelos negros longos..ela tinha uma pele clara.
A Mara Lídia, a Loloca, era uma moreninha cor de cuia, tipo indiazinha, a gente se identificava muito, sempre juntos.
Andava sempre de short...ou vestido de chita soltinho. Era de uma simplicidade pura, um sorriso lindo.
As vezes ela me perguntava porque eu lia muito...e eu dizia que a leitura, eram muitas viagens que eu fazia, e nessas viagens eu aprendia muito, era uma escola que meus pensamentos visitava.
Dizia...a leitura nos ensina..leia sempre.
Ela dava aquele sorriso lindo...e completava..vou começar a ler também.
Após o almoço, eu e Mara Lídia, iamos pro pomar, ali, era um santuário de frutas de todo o tipo...peras..laranjas, bergamotas... cáqui.... morangos, e outras.
A gente ia comer frutas..bergamotas..as vezes eu subia no pé da bergamoteira, outras vezes ela.
A gente dava muita risada.
Andávamos a cavalo por aqueles campos, fazendo a lida que muitas vezes meu tio pedia...buscar o gado na invernada, levar para tomarem água no açude..enfim, de tudo um pouco a gente fazia .
Na madrugada eu levantava pra ajudar meu tio e primos para na mangueira, preparar as vacas para tirar o leite, apojar, e colocar nos tambos de leite..nos intervalos eu me deliciava com as tetas da vacas, pegava um copo e ali mesmo me fartava, "eu adorava uma teta". Mais tarde , eu e o Perizinho, as vezes com o Júlio, ou meu tio Peri, íamos levar o leite para entregar na guarnição militar, e para alguns fregueses. O serviço era numa charete, puxada pela égua Rainha.
As vezes eu conduzia a charrete...me sentia " o cara".
Repito....foi lá...com meu tio, tia, primos e primas que aprendi o gosto de tudo.
Eu aprendi muito na vida de campo, meu tio me mostrou a beleza da terra e que tínhamos que cuidar dela.
Esse tempo, para mim é inesquecível, a simplicidade dos meus tios, primos, e primas e o mais importante , o carinho , o amor por mim, me deixavam muito feliz.
Eu sempre fui acolhido com o coração e a alma deles.
Falei antes, que meu tio Peri, era um homem rude, mas digo , um grande homem, coração enorme.
As vezes, por um motivo ou outro meus primos "aprontavam", e o pau comia.
Bah..Meu Deus! Aqueles guris apanhavam, meu tio nem olhava , o que pegava para dar uma "sova", um relho, um freio, um pedaço de pau, uma vara, era coisa feia.
Confesso que pensava que até eu ia ser premiado com uma "tunda" de laço...kkkk
Aprendi muito...aprendi..com meu tio Peri, e primos, a lida do campo, com o gado,banhar o gado, cavalos, plantação, a tarefa leiteira, arar a terra em algumas oportunidades.
Tudo isso que nessas linhas escrevo, para mim foram lições, de carinho, respeito, amor, vida, fraternidade e amizades. Aprendendo a partilhar, compartilhar...e cuidar.
Eu tenho sim. A pretensão de colocar tudo isso para resgatar esse tempo e agradecer sempre, esse tempo.
Também, agradecer a todos, por tudo que me ensinaram, lições de vida, e sobretudo amor.
Confesso e vou repetir sempre, eu era muito amado por todos.
Me sentia abraçado, acarinhado porque eu via nos olhos deles esse amor.
Eu não tinha dúvidas, férias minhas .."ah... sim, era no meu tio Peri".
Hoje o relógio do tempo, já viajou várias voltas, meus cabelos estão brancos, mas dentro de mim, tem esse grito que quer sair, explodir, berrar como um touro numa invernada: " muito obrigado meu tio,padrinho, amado, Tio Peri, e minha Tia amada Olivina" que no plano que estejam recebam, o meu reconhecimento, agradecimento, também aos primos in memorian, e os que aqui estão na estrada.
Obrigado...de coração!
O meu amor e carinho por tudo que me deram, e aprendi.
Por esse imenso carinho a mim que Deus sei, está com todos vocês.
Rosinha, Mara, Luiz Henrique,agradecido eternamente por tudo.
Talvez seja esse o momento oportuno , o momento que tenho para agradecer .
Foram tempos lindos, de muita vida!
Digo que tenho saudades de tudo, talvez seja coisa de velho, da idade que está presente em nós.
Saudade do cheiro daquela terra, dos lugares que convivemos.
Foi vida..amor.. magia ..tudo junto.
Fiz questão de escrever, de relatar, lógico que teria muitas outras coisas a descrever...mas nesse momento , o coração pula que nem coice de matungo, corcoveia, galopa.
A vida nos apresenta momentos e ela me presenteou com esse quadro que convivi com todos vocês.
Lembro de um momento que meu tio, me disse: "Julinho, vamos lá perto do açude , cortar uma lenha pra casa".
Devereda, peguei um saco, e fui a passito com meu tio. Me sentia um homenzinho, um cuiudinho como a gauchada diz...rsrsr.
Lá, naquele julho.num inverno de renguear cusco, meu tio me ensinava a cortar lenha, segurar o machado com segurança.
Após esse trabalho meu tio começou a tirar a roupa, eu vi aquele homem forte, pelado, confesso fiquei com vergonha, e ele dizia..." Vamo, tira roupa, deixa os bagos de fora, o macho se forja no rigor, na intempérie.
Me fui pra água gelada do açude...que frio!
Sai da agua depois...deu um calorão.
Meu tio dizia que era a melhor coisa pra saúde.
Lembro que nos fim de semana meus pais iam lá fora, e lá no meio das plantações, meu tio saia com o meu pai. e escolhia um melão que meu pai adorava e ali saboreavam.
Meu tio chamava o primo Júlio, e dizia .. pega um saco pra pegar umas coisas para Cely levar, ia milho, batata, tomate, feijão, verduras e frutas.
Minha mãe sempre levava roupas, remédios, pro pessoal.
O único lugar que meu pai gostava de ir era no tio Peri.
Outra feita, meu tio pediu para eu buscar o gado no campo, me perguntou se eu garantia o serviço, disse..." Com certeza tio, confio no meu taco". Então pega a Rainha e vai lá depois vamos comer a bóia.
Fui lá..peguei a Rainha coloquei um pelego no lombo dela, peguei um pelego bem novinho e me fui buscar o gado.
Quando o gado estava no açude entrei com a égua na água, estava um mormaço infernal, a tipa começou a acocar, a abaixar na água e eu pensei vou morrer..embaixo dessa égua, peguei um caraguata, e dei um impulso e sai debaixo da Rainha.." que cagaço!
Olhei a minha volta , e o pelego?
Ele ,o pelego, deslizava feliz na água do açude.
Pensei...bah! Vai sobrar pra mim.
Na hora da bóia todos me olhavam e eu estava preocupado, meu tio: - Julinho como foi lá no açude?
Todos começaram a rir, eles já sabiam do ocorrido.
Meu tio disse: - Ao entrar na água com o cavalo, entre sempre com a rédea curta.
Todos riram.... eu fiquei num vermelhão.
Meu tio pra me dar força disse , acontece, você está muito bem .
O pelego a gente dá um jeito, e as risadas foram gerais.
Outra vez , fui com o Perizinho levar leite pra cidade , paramos num cliente..era cedito da manhã, no pátio da casa tinha um mundaréu de lenha, parecia um edifício.
O Primo Perizinho, disse, segura aí que já volto.
Nesse meio tempo , notei que fazia uns 15 minutos , e nada do primo, eram umas 8 horas da manhã, o movimento nas ruas e calçadas era pequeno.
Mas de repente, minha barriga começa a doer, típico de uma dor de barriga de última hora...Meu Deus!!! Vou me cagar todo e a charrete também vai "sofrer" as consequências .
De repente, não mais que de repente , não aguentei, me fui em busca de um abrigo, e vi aquele monte de toras de lenha, nao tive outra alternativa, não daria tempo, de outra solução.
Me escondi atrás das lenhas " que cagada".
Veio tudo...aí Jesus!
E o papel ? Poxa não tinha. Procurei nas imediações algo para limpar o dito cujo..não tinha. Eu já estava fraco, do acontecido...me arrastei e alcancei umas chircas,ainda bem que eram novas, dei umas pinceladas pra minorar o feito.
Me fui ao encontro do primo.. estava tomando um chimarrão e eu todo cagado.
Pedi licença para ir ao banheiro, e uma toalha meia véia pedi emprestada pra mim..eu suava em bicas.
Que alívio..me senti um rei.
Roubei um pouco de talco que tinha no banheiro , após uma higienização no local que sofreu o acidente inesperado, toquei uma bufada de talco no rabo..kkkkkk
O meu primo, tinha tomado café, depois chimarrão, e esqueceu de mim .
E perguntou: - Que houve Julinho?
Bah..primo uma dor de barriga..que tive que cagar junto as lenhas.
Ele apenas..deu muita gargalhada.
Todas e todos estarão e estão no meu coração, com o meu eterno , " muito obrigado",por tudo que recebi de todos.
Eu recebi amor, e esse o principal presente que sempre a gente quer...mas todos foram e são amados por mim.
OBRIGADO , TIO PERI!
NA LUTA SEMPRE!